Quarta, 22 Julho 2020 15:51

Bate Papo com Lívia Kreisler - o Ineditismo na Federação, a primeira treinadora a conquistar um título em categoria masculina

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A conquista é importante não é só para mim, mas para todas as mulheres que trabalham neste esporte.
              A assessoria de imprensa da FFSERJ conversou com Lívia Kreisler, treinadora da categoria Sub-12 e Sub-13 do time Grau 10/Securitários da Federação de Futebol de Salão do Estado do Rio de Janeiro.

            Em um bate-papo, a treinadora da categoria masculina da Sub-12 falou sobre sua trajetória dentro do mundo da bola, da importância do título no ano passado para as mulheres, dos preconceitos enfrentados no esporte, do impacto causado pela pandemia, dentre outros assuntos.

Felipe Mirabelli: Boa tarde Lívia, para iniciarmos, gostaria que falasse sobre sua paixão pelo esporte.    

Lívia Kreisler: Desde pequena era apaixonada pelo esporte. É engraçado, porque toda menina que queira praticar determinados esporte quando pequena, enfrenta resistência, pois os pais geralmente preferem que a sua menininha faça ballet. Cheguei lá, vi aquilo e não era mesmo para mim. Ai, no mesmo clube, tinha o futsal. Saimos da aula de ballet e fomos direto para o futsal. Assistimos a aula e pedi para me matricularem. Devia ter uns 10 ou 11 anos. Isso foi no Clube Municipal, na Tijuca.WhatsApp Image 2020 07 22 at 11.47.55

F.M.: Treinou em algum clube antes de vir para o Grau 10/Securitários?      

L.K.: Em escolinhas, passei pelo América, AABB Lagoa, Monte Líbano, Caiçaras, Núcleo Oficial do Grêmio, Colégio São José (atividade extra classe). E por clubes em que disputei campeonatos pela Federação, o Helênico AC (Sub-13), Mello TC (Sub-13) e agora no Grau 10/Securitários (Sub-12 e Sub-13).

F.M.: Nos conte um pouco sobre a filosofia de trabalho no clube?     

L.K.: Aqui nós temos muita liberdade para trabalhar, todo mundo se ajuda. Não existe essa coisa de gestor, treinador, auxiliar. Conversamos muito, todos dão sua opinião sobre o que é melhor para criança, para evoluirem.

F.M.: Qual o momento de maior emoção que passou no esporte?      

L.K.: O jogo que mais mexeu comigo foi a semifinal contra o Flamengo, neste campeonato que acabamos conquistar. Não dormi antes do jogo, muita ansiedade. Foi 6x6 no tempo normal. Ai foi para a vitória simples. Estávamos perdendo de 3x0 e viramos para 4x3. Foi uma loucura total, a arquibancada estava completamente alucinada. Imaginava, um clube de bairro ganhando do Flamengo.

F.M.: Conte-nos um pouco sobre a grande final do ano passado?      

L.K.: Estava mais tranquila na grande final. Já tinhamos chegado onde queríamos chegar. Agora, dependia muito mais do time estar tranquilo. Foi contra o Vasco da Gama. Acredito que as crianças estavam um pouco ansiosas porque a maioria nunca tinha participado de uma final dentro da Federação. Ficaram mais nervosos porque 3 ou 4 jogadores chegaram atrasados. O Vasco abriu 2x0 logo no início do jogo. Ai, fomos para o intervalo com 2x1. Conversamos bastante no intervalo, acalmamos todos e conseguimos virar para 5x2. Uma emoção única.

F.M.: Em sua opinião, qual o maior destaque do time?     

L.K.: O destaque é o grupo inteiro, jogam juntos desde novos. São muitos amigos. Entendem a filosofia de trabalho. Se ajudam dentro da quadra e não faltam treino. São apaixonados pelo que fazem. Me respeitam e estão acostumados comigo. O destaque é o grupo, mas devo citar Gabriel Valle que tem sobressaido.

F.M.: E para o futuro?   O que deseja? Pensa em fazer a transição para o futebol?

L.K.: Nunca pensei na transição para o futebol, sempre fui apaixonada pelo futsal. Mas o meu sonho, é que a gente possa ter uma qualidade maior de trabalho, apoio,  patrocínadores, parceiros, que a gente consiga valorização financeira no mesmo dos 4 grandes. Todo mundo sonha em estar em um clube de camisa, mas hoje, a minha mentalidade é ajudar quem me ajudou.

F.M.: Como foi o início da sua trajetória dentro das competições?      

L.K.: Todo jogo contra mim é final. Ninguém quer perder para mim. Sempre falam, poxa, perdeu para uma menina. No inicio então nem se fala, escutava isso direto, principalmente nos bastidores. Hoje, já não escuto mais essas coisas, deu uma parada.

F.M.: Existe ainda preconceiro dentro do esporte?  

L.K.: Existe preconceito sim. A sociedade é muito machista. Se os pais falam alguma coisa, o Carlinhos Grau (Carlos Henrique Teixeira, fundador do Grau 10) intervem imediatamente. Mas o que mais me incomoda é o assédio. Dão em cima descaradamente.

F.M.: Já enfrentou algum desaforo, alguma agressão?      

L.K.: Já estive em clube que cuspiram em mim. Estávamos ganhando, e ficavam cuspindo.

F.M.: Em sua opinião, acredita que mais treinadoras femininas irão conseguir ingressar na categoria masculina?         

L.K.:Estamos até dando oportunidade para outra menina que chegou agora para a comissão técnica. O Carlinhos Grau gosta muito do futsal feminino. Ele não faz diferença, gosta de dar oportunidade para outras mulheres. Não vê diferença em gênero, se é competente, irá somar com toda certeza.

F.M.: O que essa conquista significa para você?      

L.K.: A conquista é importante não só para mim, mas para todas as mulheres que trabalham neste esporte. Você está vendo que a Federação está vindo com a categoria feminina. É para mostrarmos que temos competência e que podemos trabalhar de igual para igual na categoria masculina. Não existe diferença. A importância do que aconteceu é muito grande para mim pessoalmente.

F.M.: E para terminar, como está sendo para se adaptar a esta pandemia?  

L.K.: Durante a pandemia estou fazendo vários cursos online. Vejo vários videos de jogos antigos no Youtube para saber o que estávamos fazendo de errado.

Acho que os garotos estão lidando até melhor do que eu, porque a minha cabeça já está pirando. Ainda mais por ser uma pessoa extremamente ansiosa. Consumo futsal 24 horas por dia.

Felipe Mirabelli
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